Preâmbulo

Ó posteridade feliz, que não viveu esse horror abissal, e verá nosso testemunho como meras fábulas.

(Petrarca, 1304-1374)

A epígrafe de Petrarca que abre esta pequena obra requer uma explicação para o leitor ainda não iniciado no assunto deste livro. De fato, ela expressa a minha terceira motivação para escrevê-lo. Em 1348 ele testemunhou, junto com seu amigo Boccaccio, algo tão grave e extraordinário que as gerações posteriores não assimilariam o que aconteceu, pois a Grande Mortalidade da peste pandêmica medieval não é concebível para nossas mentes. Mortos se amontoavam nas ruas, praças e igrejas. Não havia mais terra para sepulta-los, nem coveiros para enterrá-los, nem padres para encomendá-los, pois a maioria sucumbira à peste; a colheita no campo foi abandonada; o gado deixava seus cercados em busca de alimento e, obedientes, voltavam quando o sol se punha; no norte, matilhas de lobos selvagens desciam à noite invadindo as casas indefesas para atacar e devorar os pequenos e adultos indefesos ainda vivos; bandos de corvos e abutres povoavam os céus, e os ratos do campo invadiam a cidade destemidamente para pilhar alimentos. Tamanha era a virulência do bacilo pestífero, que em seu rastro não matava apenas seres humanos, mas também cães, gatos, porcos, mulas, cavalos, gado, carneiros, cabras, camelos, aves de capoeira… O último ataque da Peste Negra na Europa mediterrânea, em Marselha, 1720, exterminou em pouco tempo 50 mil pessoas, apesar das medidas de contenção iniciadas de imediato que conseguiu deter, afinal, o espalhamento do mal. Ela foi introduzida pela galera Grand Saint-Antoine proveniente da Síria e do Líbano. Uma simples falha na quarentena resultou nessa catástrofe. O navio foi isolado no porto por três semanas, devido a oito mortes ocorridas a bordo, e então a carga de lã e tecidos foi vendida à população ainda no local, e com ela a peste. O ataque foi fulminante. Cadáveres amontoavam-se nas ruas e praças. Em frente à porta do bispo Belsunzo, conforme ele mesmo relatou, havia mais de 150 cadáveres em decomposição ou estraçalhado pelos cães. “O fedor quando o sol escaldante subia era indescritível… [além disso] um grande número de pobres sofredores, famílias inteiras, deitadas sobre colchões miseráveis de palha esperavam a morteJamais se viu tamanha orfandade nas ruas… Carroças de cadáveres de ricos e pobres, moços e velhos, desciam as ruas”.

Esse pesadelo não pertence ao passado, não somos a civilização que debelou e eliminou as doenças infecciosas do planeta. A Peste Negra não é história. É real. E poderá retornar, algum dia futuramente… Instabilidade e imprevisibilidade regem o mundo em que vivemos.