Investigações retrospectivas

A compreensão das coisas e fenômenos é um processo cognitivo que evolui e se aperfeiçoa lentamente. O conhecimento que temos hoje sobre o mundo e as conquistas que melhoraram a vida comum resultaram da evolução de nossa cognição, refinando-se aos poucos as percepções e as ideias, evoluindo de uma linguagem mítica para mágica, da mágica para a observacional e empírica, e desta para os constructos linguísticos abstratos da ciência atual.

A ciência (entre outras coisas) descobre a regularidade de ocorrência de padrões, e então testa suas observações fazendo previsões e formula-se os possíveis mecanismos que explicam os fatos observados. No entanto, existem circunstâncias em que o mecanismo é obscuro, e quando isso ocorre, raciocinamos com probabilidades.

Algumas ciências são molares, isto é, seu campo de observação é macro, ou em grande escala; elas lidam com sistemas globais e assim partem para uma visão de conjunto, abrangente. Assim é, por exemplo, com a epidemiologia, ecologia e a economia. As ciências ditas moleculares têm seu campo de observação no espaço micro, isto é, analisam os detalhes os mecanismos de uma parte isolada de um todo, como, por exemplo, a biologia molecular, a epidemiologia molecular e a engenharia elétrica.

A epidemiologia histórica e um exemplo de ciência molar, pois lida com ciclos históricos, onde a falta e/ou a contradição das informações são mais comuns, quanto mais recuado o tempo. Os eventos estudados que começaram há longo tempo podem continuar impactando o mundo atual ou acumula um potencial de repetição, como a Peste Negra. Por tal motivo, é importante estudar esses eventos do passado – por exemplo, decifrar a Peste Atenas, como Tucídides insistiu -, pois sua compreensão pode ser decisiva para que se possa conhecer, identificar e intervir em possíveis retornos. As ciências moleculares aumentam o poder cognitivo de tais estudos por fornecer informações detalhadas e esclarecer mecanismos, como, por exemplo, foi o caso da identificação de segmentos genômicos de Yersinia pestis em restos cadavéricos de vítimas da Peste Justiniana e da Peste Negra. Além disso, nos dá informações sobre uma doença pandêmica que o mundo atual não conhece. A união dessas duas abordagens é sempre necessária.

Muitas vezes em nossas investigações históricas de eventos em massa só dispomos de uma abordagem molar. Nesses casos, quais são os métodos que nos permitem formular boas hipóteses e modelos verificáveis? Os processos estocásticos (que fazem uso de probabilidades e estatísticas), tais como cadeias de Markov, simulação de Monte Carlo, inferência bayesiana, dedução estocástica e lógica são alguns exemplos. Esses métodos podem ser usados como métodos exploratórios e podem também servir de feedback na elaboração de modelos ou levar eventualmente a pistas inesperadas.