Michel da Piazza sobre o começo da peste, 1347

Michel da Piazza*, monge do convento da Catania, na Sicília, registrou a peste negra desde sua chegada, em outubro de 1347 a 1361. O autor descreve como a Peste Negra atacou inicialmente na forma pneumônica. Ele também relata a instalação da forma bubônica e como ela evoluía para as formas septicêmica e pneumônica.

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Aconteceu que no mês de Outubro do ano de Nosso Senhor de 1347, em torno do primeiro dia desse mês, doze galés genoveses, fugindo da ira de nosso Senhor que desceu sobre eles, por suas más ações, atracaram no porto da cidade de Messina. Trouxeram com elas uma praga que eles levaram dentro da medula dos seus ossos, de modo que se alguém falasse com eles, seria infectado com uma doença mortal, que trazia a morte imediata e que não se podia evitar. Os sinais de morte que os genoveses e Messinenses compartilharam eram estes: Entre aqueles conversando, o sopro da infecção se espalhava igualmente entre eles, um infectava o outro, de modo que quase todo o corpo sucumbiu à lastimável doença. Do ataque da doença e da respiração infecciosa, surgiram certas pústulas do tamanho de uma lentilha nas pernas ou braços. A praga, assim, infectava e penetrava o corpo tal que suas vítimas cuspiam sangue violentamente e essa tosse com expectoração com sangue continuava incessantemente por três dias, até elas expirarem. E não só morriam todos que falaram com as vítimas, mas também aquelas que compraram alguma coisa delas, tocou-lhes, ou teve qualquer tipo de relação com elas…

E, assim, os messinenses espalharam [a peste] ao longo de toda a ilha da Sicília, e quando eles chegaram à cidade de Siracusa, no curso de suas viagens, infectaram os siracusanos, pelo que a praga mortal matou um número diverso e imenso de pessoas. As regiões de Sciacca e Trapani e da cidade de Agrigento da mesma forma se juntaram aos messinenses como vítimas dessa peste, e especialmente a região de Trapani, que permaneceu quase despovoada de pessoas. O que podemos dizer da cidade de Catania, que foi jogada ao esquecimento? A referida praga apareceu em tal força que não somente as pústulas, chamados na língua vulgar antrachi [“negras como carvão”], mas também certos inchaços glandulares [bubões] surgiram em vários membros do corpo, umas na virilha, outras nas pernas, braços, e no pescoço. Eles eram primeiros do tamanho de avelãs, e que apareceu junto com uma rigidez gelada [dos membros]. E eles enfraqueciam e agrediam o corpo humano de tal forma que eles não mais conseguiam se levantar, e ficavam prostrados no leito, queimando de febre alta e abatido numa depressão profunda. Diante disso, esses inchaços glandulares cresciam para o tamanho de uma noz, em seguida, para o tamanho de um ovo de galinha ou de ganso e tornavam-se bastante dolorosos, e por putrefação dos humores eles forçavam o corpo humano a escarrar sangue. Quando a expectoração sanguinolenta dos pulmões infectados atingia a garganta, [este era um sinal de que] todo o corpo estava em putrefação. Depois desta putrefação e deficiência dos humores, as vítimas entregavam o espírito. Na verdade, esta doença durava três dias; mas pelo quarto dia mais tardar todas as vítimas acima mencionadas passavam de suas vidas mundanas.

*Michel da Piazza, Cronaca, P. Antonio Giuffrida (ed.), Palermo: ILA Palma, 1980.