Louis Sanctus. As formas da peste

Louis Sanctus, de Avignon, em uma carta de 27 de abril de 1348. Ele descreve as tres formas de peste, e menciona as necropsias que eram realizadas na Itália e em Avignon por ordem do papa. Este relato mostra que a Peste Negra que atacou e invadiu a Europa foi inicialmente a forma pneumônica, e que depois que esta se instalava aparecia a forma bubônica e septicemica.

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Diz-se que a peste são três tipos de infecção. Primeiro, que os homens sentem dor em seus pulmões e daí vem uma falta de ar. Aquele que tem esta doença, ou foi contaminado por ela de alguma forma, não escapará, e viverá não mais do que dois dias. Dissecações foram realizadas por médicos em muitas cidades italianas, e também em Avignon por ordem do papa, de modo que a origem desta praga pode ser conhecida. Em muitos corpos que foram cortados e abertos, verificou-se que todos os que morreram tão de repente tem uma infecção nos pulmões e expectoração com sangue. E assim segue-se que esta praga é fato mais terrível e perigoso para todos, ou seja, é contagiosa, porque sempre que uma pessoa infectada morre, todos os que a viram ou visitaram-na durante a sua doença, ou tiveram algum tipo de relações com ela, ou a carregou para o túmulo, imediatamente irá segui-la, sem qualquer remédio.

Há também um segundo tipo de peste que existe concomitantemente com a anterior [peste pneumônica]: a saber, aquela em que certas apostemas [abscessos] aparecem subitamente em ambas axilas, e que levam os homens a morrerem sem demora. E há ainda uma terceira praga, da mesma forma simultânea com os duas já mencionadas, e que segue seu próprio curso: ou seja, que as pessoas de ambos os sexos são atingidos na virilha, a partir do qual elas morrem de repente. Como as formas acima esta peste também se espalha, e os médicos não visitam esses doentes, por medo de contágio, nem mesmo se o paciente lhes der tudo o que possui nesta vida. Nem o pai visita o filho, a mãe a sua filha, o irmão a seu irmão, o filho a seu pai, o amigo a seu amigo, o conhecido a seu conhecimento, nem qualquer outro que tenha uma relação de sangue, a menos que se deseje morrer de repente. E, assim, um número incontável de homens morreu por fazer o seu dever afetuoso com os de suas relações, e também aqueles que eram conhecidos por sua piedade e caridade.

*Recuiel des chroniques de Flandre, cit. p. John Aberth, The Black Death – A brief history with documents, New York: Palgrave McMillan, 2005.