Gabriel de Mussi e a peste em Caffa

… Em 1346, nos países do Oriente, um número incontável de tártaros e sarracenos foram golpeados por uma doença misteriosa que [lhes] trouxe a morte súbita. Nesses países grandes regiões, províncias, reinos magníficos, cidades, vilas e povoados, foram trituradas pela doença e devoradas por uma morte terrível, e logo despojadas de seus habitantes. Um assentamento oriental sob o domínio dos tártaros chamado Tana, que ficava ao norte de Constantinopla e era muito frequentado por mercadores italianos, foi totalmente abandonado depois de um incidente que o levou a ser assediado e atacado por hordas de tártaros que se reuniram em um curto espaço de tempo. Os comerciantes cristãos, que haviam sido expulsos pela força, ficaram tão apavorados com o poder dos tártaros que, para salvar a si e seus pertences, fugiram em um navio armado para Caffa, um assentamento na mesma parte do mundo, que tinha sido fundado há muito tempo pelos genoveses.

Oh Deus! Veja como os tártaros pagãos… investiram de repente sobre a cidade de Caffa e sitiou os cristãos lá por quase três anos. Cercados por um imenso exército, mal podiam respirar, apesar de os alimentos lhes chegar em navios, o que lhes deu alguma esperança. Mas eis que o exército [tártaro] inteiro foi afetado por uma doença que invadiu e matou milhares e milhares de tártaros todos os dias. Era como se setas chovessem do céu para atacar e esmagar a arrogância deles. Todos os conselhos médicos e atenção eram inúteis; os tártaros morriam logo que os sinais de doença apareceram nos seus corpos: inchaços nas axilas ou virilhas causados por humores de coagulação, seguido de uma febre pútrida.

Os tártaros morrendo, atordoados e estupefatos pela imensidão do desastre provocado pela doença, e percebendo que eles não tinham esperança de escapar dela, perderam o interesse no cerco. Mas eles ordenaram que os cadáveres [dos mortos pela peste] fossem colocados em catapultas e arremessados para dentro da cidade na esperança de que o fedor insuportável matasse todos que estavam lá. Montanhas de mortos foram jogadas dentro da cidade, e os cristãos não conseguiam fugir ou escapar deles, embora jogassem muitos dos corpos que podiam no mar. E logo os cadáveres em decomposição contaminaram o ar e envenenaram o abastecimento de água, e o mau cheiro era tão grande que dificilmente um em vários milhares estava em condições de remover os restos dos cadáveres tártaros. Além disso um homem infectado poderia levar o veneno para os outros, e infectar pessoas e lugares com a doença só pelo olhar. Ninguém sabia, ou podia descobrir um meio de defesa.

Assim, quase todo mundo que estava no Oriente, ou nas regiões ao sul e ao norte, foi vítima de morte súbita após contrair esta doença pestilenta, como se atingido por uma flecha letal que levantou um tumor[bubão] em seus corpos. A escala da mortalidade e a forma que ela tomou convenceu aqueles que [sobre]viveram, chorando e lamentando, pelos acontecimentos amargos de 1346-1348, [e assim tambpem] os chineses, os indianos, persas, medos, curdos, armênios, cilícios, georgianos, mesopotâmios, núbios, etíopes, turcos, egípcios, árabes, sarracenos e gregos (por quase todo o Oriente tem sido afetada) – que o juízo final havia chegado.

… Entre os que escaparam de Caffa de navio estavam alguns marinheiros que tinham sido infectadas pela doença venenosa. Alguns barcos se dirigiam para Genova, outros foram para Veneza e outras áreas cristãs. Quando os marinheiros alcançaram esses lugares e se misturaram com as pessoas de lá, foi como se tivessem trazido maus espíritos com eles: cada cidade, cada assentamento, cada lugar foi envenenado pela peste contagiosa, e os seus habitantes, tanto homens como mulheres, morreram subitamente. E quando uma pessoa tinha contraído a doença, ela envenenava toda a sua família, mesmo quando caia e morria, pois aqueles que preparam seu corpo para o enterro eram surpreendidos pela morte da mesma forma. Assim, a morte entrou pelas janelas, as cidades e vilas foram despovoadas e seus habitantes lamentavam seus vizinhos mortos.

Trecho traduzido de:

Gabriele de’ Mussis. Ystoria de morbo seu mortalitate qui fuit a 1348. H. Haeser (ed.), Archive für die gesamte Medizin 1841; 2: 26-59.